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AUDITORIA NO SETOR ELÉTRICO - ENTREVISTA COM BRADLEI MORETTI

Auditoria no setor elétrico - entrevista com Bradlei Moretti

Confira a entrevista do Sócio da Berkan, Bradlei Ricardo Moretti, para a Revista Apoena (Revista de P&D+I da Eletrobras Furnas).

Há quase 23 anos prestando serviços de auditoria e consultoria, Bradlei Moretti pôde acompanhar todas as mudanças ocorridas no setor elétrico nesse período. Na Ernst&Young, onde começou sua carreira em 1995, como trainee, teve como primeiro cliente a Eletrobras Eletrosul.

Além de se tornar um especialista, sempre trabalhando para empresas do setor elétrico e prestando serviços para a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), tornou-se sócio-diretor da empresa. Até que, em 2015, abriu a Berkan Auditores, que hoje atende grandes empresas nacionais e internacionais.
 

Com Mestrado em Ciências Contábeis e MBAs no Setor Elétrico, em Administração, e em Contabilidade Gerencial e Financeira, Moretti se debruça especialmente sobre os projetos de P&D+I e Eficiência Energética. Participando ativamente das discussões sobre o Manual de Contabilidade e as regras para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação na agência reguladora, o executivo faz um balanço positivo para a área.
 

Aponta que as empresas estão mais responsáveis e com mais conhecimento sobre controle. E acredita que, com o fim dos ciclos da ANEEL, a tendência para o futuro é o investimento mais em qualidade do que em quantidade de projetos.
 

Contudo, Moretti faz um alerta sobre a qualidade do serviço de auditoria: é preciso que as companhias encarem o auditor como um aliado que pode evitar problemas no futuro, e não como uma mera obrigação legal.
 

Isso requer mais cuidado no momento de contratar esse profissional: “a ANEEL diz que os auditores são seus olhos dentro das empresas. Mas esse olhar vai depender do ‘grau de miopia’ que a empresa quer contratar.”
 

APOENA | Como funciona a auditoria de projetos de P&D+I?
 

Bradlei Moretti: Ela trata dos aspectos contábil e financeiro, e as regras servem tanto para projetos de Pesquisa e Desenvolvimento como de Eficiência Energética. Para as auditorias de projetos técnicos não há diferença, entretanto, na auditoria do Programa e Projeto/Programa de Gestão há pequenas diferenças. Pelo lado contábil, verificamos se a empresa está calculando de forma adequada os investimentos que têm de ser realizados, de acordo com a regulação da ANEEL, bem como os valores a serem recolhidos ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e ao Ministério de Minas e Energia (MME). Na parte financeira, a auditoria verifica se o que foi orçado e planejado foi efetivamente realizado, analisando as principais variações apresentadas, se os desembolsos efetivados, seja para as instituições executoras ou para profissionais envolvidos nos projetos, estão corretos e adequados, se está havendo o correto recolhimento de impostos, entre outros procedimentos. A preocupação do órgão regulador é assegurar a correta destinação dos recursos para P&D e Eficiência Energética, uma vez que se trata de dinheiro público, já que todos os consumidores de energia elétrica pagam uma contribuição para esse fim em sua conta mensal de energia elétrica.
 

APOENA | Em 2016, houve mudanças no manual de auditoria em relação ao documento anterior, de 2012? Quais foram?
 

Bradlei: Primeiro, é importante deixar muito claro que os auditores seguem o que chamamos de Procedimentos de Auditoria Previamente Acordados (PPA), comumente chamados de Manual de Auditoria, onde estão descritos todos os procedimentos que o auditor deve realizar e inserir em seu relatório. Na verdade, em 2016, o manual de auditoria sofreu apenas uma alteração, que consistiu na atualização dos números das contas contábeis, conforme os dispositivos do Manual de Contabilidade do Setor Elétrico (MCSE), aprovado pela Resolução no 605/2014, em vigor desde 1o de janeiro de 2015. O documento que sofreu mudanças significativas no ano passado foi o Manual do Programa de P&D (Proped), e a principal está relacionada ao Projeto de Gestão de P&D, que será bienal, igual ao que já é aplicado à Eficiência Energética. É importante ressaltar que o Manual de Auditoria atualizado e refletindo todas as alterações do novo Proped ainda não foi divulgado pela agência.
 

APOENA | O novo manual contempla mais as demandas do setor elétrico na área?
 

Bradlei: O problema específico no caso da auditoria é que as discussões sobre qualquer nova regra em geral se resume às audiências públicas, que muitas vezes são apenas disponibilizadas no site da agência, sem nenhuma discussão mais profunda e presencial sobre o tema. Há uma responsabilidade dos dois lados: nós, do setor elétrico, que muitas vezes não participamos tanto das discussões, e a ANEEL, que resume a participação externa a esse momento. No caso da auditoria, acredito que deveria haver mais discussões entre auditores, empresas do setor elétrico e órgão regulador, mas os debates são muito incipientes. Por exemplo, a agência publicou o Proped 2016 e mesmo assim várias dúvidas persistem tanto para os auditores como para os agentes. Enfim, infelizmente os trabalhos de auditoria de P&D e Eficiência se transformaram em uma commodity, ou seja, vale o menor preço, sem uma efetiva preocupação em agregar valor, tanto à outorga quanto ao órgão regulador. Deveria ser algo para ajudar a empresa, avaliar e aprimorar os controles internos relacionados aos projetos e, principalmente, agregar valor aos gestores de P&D e EE. Estou há 22 anos atuando no setor elétrico e acredito que podemos e devemos melhorar muito a comunicação entre a ANEEL, os agentes e os auditores.
 

APOENA | Quais são os pontos que costumam causar mais problemas durante as auditorias?
 

Bradlei: Como as empresas já ganharam experiência e estão mais adaptadas às regras, os problemas que identificamos vêm diminuindo consideravelmente. Se eu comparar os trabalhos que eu fazia em 2010 com os atuais, os relatórios hoje possuem poucos pontos de auditoria. Mas, até 2016, o principal problema que identificávamos era no cálculo do valor a ser aplicado nos projetos, muito em razão da falta de comunicação entre o departamento contábil e o departamento de P&D+I. Também observamos falhas em relação aos controles dos projetos, por exemplo, as empresas costumam contratar um executor para seus projetos, que, em geral, é uma universidade ou empresa focada em desenvolvimento tecnológico. E, muitas vezes, quem controla os recursos é esse executor, que não tem experiência nessa atividade, em controle de processos, ou mesmo conhecimento sobre as auditorias exigidas pela ANEEL. Não é incomum encontrar casos em que o executor perde os comprovantes de pagamentos que fez, ou não os pediu, ou não os registrou na conta contábil correta. Há um problema de comunicação entre a empresa contratante e o executor. Há ainda problemas com o controle de horas dos profissionais envolvidos nos projetos. Mas é fato que mesmo essas falhas estão sendo reduzidas.
 

APOENA | Qual a sua percepção sobre os projetos de P&D+I após o fim dos ciclos da agência?
 

Bradlei: O que vem acontecendo muito no setor elétrico agora, e isso é muito interessante, é que estão sendo feitos projetos muito mais robustos, estratégicos. Vejo muitas empresas fazendo projetos mais relevantes financeiramente. É claro que, nesses casos, o controle que deve ser feito é muito mais rigoroso, mas a empresa acaba tendo de aplicar mais recursos e se concentrando em um só tema, de seu interesse. Então, o que vejo é que os projetos estão aumentando em tamanho e diminuindo em quantidade.
 

APOENA | Que recomendações você daria a uma empresa no momento de contratar uma auditoria?
 

Bradlei: As empresas vêm contratando pelo menor preço, apesar de esse recurso não sair do caixa da companhia, já que está incluído no investimento do projeto. Por isso, salvo as empresas públicas, que têm de seguir a Lei de Licitações, acho temerário contratar profissionais pelo menor preço e correr o risco de não ter um trabalho de qualidade e que efetivamente contribua para o processo da companhia. É fundamental que o auditor tenha experiência, conheça o setor elétrico, saiba o que é P&D+I, quais são os projetos, como funciona. A auditoria trabalha com número de horas, portanto, quanto menor o meu honorário, menor o número de horas que eu tenho para aplicar em um projeto. E isso compromete a qualidade da auditoria. Se sou o responsável pelo P&D+I de uma concessionária, eu usaria a auditoria como um benefício para poder dormir tranquilo. Não preciso contratar o mais caro, obviamente, mas posso contratar alguém que me garanta um trabalho de qualidade, que todos os meus recursos estão sendo auditados efetivamente, de forma assertiva. Que o meu relatório vá para a ANEEL com qualidade e que eu não tenha problemas no futuro, seja com o órgão regulador, seja com a diretoria da minha empresa. Afinal, estamos falando de dinheiro público, do consumidor. Tem de haver responsabilidade com esses recursos. Como gestor, eu gostaria de ter a garantia de que estou sendo bem auditado, mostrando assim para a ANEEL e também para os stakeholders que os recursos estão adequados e sendo bem aplicados. Particularmente, acho que não verificar a qualificação do profissional faz com que a auditoria perca seu real objetivo, que é o de dar uma resposta adequada ao órgão regulador. A ANEEL costuma dizer que as auditorias são os seus olhos dentro das concessionárias. Mas esse olhar vai depender do “grau de miopia” que a empresa quer contratar.
 

APOENA | O que pode ser feito para se atingir excelência na auditoria de um projeto de P&D+I?
 

Bradlei: Primeiramente, é preciso planejar de forma adequada. É preciso entender como o cliente funciona, quais são seus controles. Depois, é necessário exercer uma execução em campo, em conjunto com o cliente. Se estou auditando, tenho de estar do lado da empresa e dos responsáveis pelo projeto. Porque assim estou sentindo, conhecendo, agregando valor à empresa que me contratou. A principal dica que daria para os auditores é não pensar nisso como um trabalho recorrente, mas sim como algo que agrega valor ao cliente. Para a empresa, recomendo que entenda que a auditoria é um suporte tanto para o departamento responsável pelo projeto como para a alta administração da companhia e para a sociedade, via órgão regulador.

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